segunda-feira, fevereiro 20

Uma educação para a liberdade dos corpos

Numa sociedade, como a nossa, de tradição cristã, o corpo é deveras desprezado, tido como sujo. Atender aos desejos do corpo é impuro. Maior pecado ainda se sentir prazer. É certo que crianças vítimas desta visão obsoleta tornem-se adultos ansiosamente censuradores e inseguros. Eles contaminarão seus filhos quando forem pais e o processo tende a tomar continuidade com os netos. 


Não há que se ter censura se queremos educar uma criança de maneira saudável. Uma criança, naturalmente, possui curiosidades sobre o sexo e há que se esclarecer estas dúvidas, sem muitas delongas e com objetividade. Demonstrar à criança que o corpo é belo e não sujo. Não significa, porém, que uma criança de 10 anos deva ser expert em posições sexuais, também não é por esse lado. Mas tratar do corpo da maneira sensata: com naturalidade. Meninos e meninas não devem crescer com a ideia de que é errado que cada um forneça prazer a si mesmo. Isso é algo absurdo! Se temos mãos e órgãos genitais, por que não tocá-los, por que não explorá-los e conhecê-los? Se é pecado, por que diabos nascemos com eles? A religião, sobretudo a religião cristã, tende a menosprezar o que é natural e isto é prejudicial a qualquer pessoa. 

Recentemente há um movimento cristão, comum a evangélicos e católicos, denominado Eu resolvi esperar, sobre abstinência sexual até depois do casamento. Jovens que relatam, muitas vezes orgulhosos, de que conseguiram vencer a tentação e se guardaram para o grande momento. Agora, para quê, isso? Que finalidade pode ter uma coisa absurda dessas? Se a pessoa possui uma idade em que ela se considera psicologicamente capaz de fazer sexo e tem vontade, por que não fazer? Cada momento de intimidade é importante para que nos conheçamos melhor. E imaginem tal situação: a mulher se "guarda" para o grande momento e se depara com a contradição entre a realidade e a expectativa, pois todas as mulheres sentem mais incômodo que prazer na primeira vez - talvez a maioria sinta apenas incômodo. E aí, como será depois? Aquele momento em que a mulher esperava por ser mágico, foi na verdade da maneira que tinha que ser, da maneira que a natureza do corpo dita e não da maneira que a mente imagina. 


Para o homem é bem menos uma desilusão que para as mulheres. Mas ficar meses sem se masturbar e achar que cometeu uma impureza ao não resistir a tentação é uma loucura! O corpo não deve ser desprezado, ele deve ser conhecido intimamente pelo seu dono, ou sua dona. 

domingo, fevereiro 19

Um pouco de minha rasa experiência...

A experiência até hoje  mais consolidada que tenho com na área da educação é a escola integrada. O período de estágio durou de junho de 2010 a dezembro de 2011, devido ao meu desligamento da universidade. A escola localiza-se na Zona Norte de Belo Horizonte, num bairro de pessoas humildes. Para quem não sabe, a escola integrada é um projeto paralela instituído pela Prefeitura na gestão de Fernando Pimentel (2003-2007) e conta com pessoas de variadas áreas e habilidades. O problema, porém, e aí começo a tecer minha principal crítica à política pública, é que uma habilidade é o suficiente para que a pessoa trabalhe na escola; se ela for moradora do bairro, então, melhor ainda! Nos dias de reunião parecia mais um encontro entre vizinhos fofoqueiros do que profissionais da educação engajados. Exatamente, não há entrevistas, não há nenhum tipo de teste de atuação. Não digo, porém, que seja assim em todas as escolas integradas, mas com certeza em muitas ainda existe esta displicência. 

A falta de empenho na eleição dos monitores - ou seja, os agentes educativos - consequentemente causava muita insatisfação nas crianças, que rotineiramente se deparavam com situações desagradáveis de pessoas autoritárias e despreparadas em lidar com crianças. É bom deixar claro que o fato de uma mulher ser mãe, por exemplo, não a torna apta a lidar com crianças. A maternidade, em si, não demonstra competência e sensibilidade suficientes para a prática pedagógica. Demasiadamente as crianças reclamavam da falta de respeito que alguns monitores as tratavam. Algumas vezes eu mesmo cheguei a tratar uma criança com desrespeito, principalmente por estar de cabeça com quente em relação aos problemas da integrada que não eram resolvidos por falta de empenho e interesse da maior parte da equipe de trabalho. Contudo, uma criança jamais deve pagar pelos problemas dos adultos, e tenho alegria em dizer que tive a humildade em me desculpar com estas crianças. Na maioria das vezes, eu me desculpava algumas horas depois; uma vez apenas, eu me desculpei no dia seguinte e, também uma vez, deixei de me desculpar. Ainda hoje eu sinto por não ter me desculpado com aquele garoto pela minha mal criação. 

De fato eu tentei ao máximo aperfeiçoar minha prática docente e torná-la cada vez mais coerente com o meu discurso progressista. Porém, ao tratar de escola integrada, deve-se levar em consideração a falta de estrutura física (as oficinas, ou seja, as atividades realizadas pelos monitores, eram desenvolvidas em outros locais que não a escola, pela insuficiência do espaço. Usávamos uma casa apertada e uma igreja evangélica monótona), de pessoas preparadas (de um corpo de 10 monitores, apenas 3 eram estudantes universitários ligados à educação; os demais 7 possuíam experiências com a maternidade ou paternidade, ou sabiam pintar sobre tecidos, jogar capoeira, etc.) e das constantes faltas de alguns monitores, as turmas pareciam verdadeiros batalhões, com toda a sua energia jovial inesgotável diante de estagiários estressados com as falcatruas do sistema público de ensino e os apertos da faculdade. É triste dizer, mas a escola integrada é uma prova de fogo na rede municipal de BH, quando deveria ser a experiência de ouro de futuros professores e pedagogos.

sexta-feira, fevereiro 17

Como nasceu este blog


Sou pedagogo recém formado e possuo, desde há algum tempo antes de adentrar-me no curso, interesse na área da educação, tanto teórico quanto prático. No decorrer do curso, nas conversas informais com os companheiros e companheiras de faculdade, fui conhecendo um pouco mais sobre autores e pensadores que eram esquecidos no espaço da sala de aula da faculdade. Teóricos que, aos olhos de vários professores, praticamente não existiam. É justo, porém, que eu ressalte que as ideias de PauloFreire foram bem difundidas. 

Mas como na universidade a formação pode ocorrer em todos os espaços e todos os sentidos, as conversas com meus colegas foram de fundamental importância para que eu conhecesse estes teóricos deixados no fundo do baú. E um deles foi A.S. Neill, fundador da escola Summerhill. Porém, o aprofundamento maior nas ideias deste educador foi graças à minha esposa, atualmente futura pedagoga, que comprou o livro "Liberdade Sem Medo (Summerhill)", num sebo à Rua Guajajaras, próximo à faculdade. 


Posso dizer que fiz uma leitura deliciosa, não só pelo apetite à leitura que o livro provoca pela sua simplicidade, mas também pela beleza pedagógica que o autor nos apresenta. Uma destas belezas é afirmar que: "(...) prefiro que Summerhill forme um varredor de ruas feliz a um Primeiro Ministro neurótico". Para Neill, o alcance do sucesso na vida é ser capaz de lidar com a própria vida; sem medo de encará-la em todos os sentidos. É sentir-se seguro frente a uma eventualidade inesperada. É erguer-se rapidamente após um tombo. Ensinar com liberdade - a verdadeira liberdade, e não os mimos excessivos - é mostrar à criança que ela é capaz de fazer suas próprias escolhas. 

Nunca li nada na área da educação que se compare a Liberdade Sem Medo. E talvez nunca lerei nada que chegará aos pés desta grande obra. No decorrer daqui pra frente, detalharei um pouco mais sobre os assuntos apresentados no livro.

quinta-feira, fevereiro 16

Inicialmente, o que é uma escola democrática


Uma escola democrática é uma instituição de ensino que está fora do padrão das instituições educacionais  mais comuns, tais como as que adotam exames admissionais, provas bimestrais, gráficos comparativos no boletim, hierarquia escolar, etc. Estando fora do padrão, uma escola democrática apresenta uma proposta em que o aluno é livre para tomar sua própria iniciativa - e é incentivado para isto! Os professores é que tem que se adaptar aos alunos, não o contrário. Aliás, o papel dos professores numa escola democrática está muito além de passar lições guiadas por livros didáticos e chamar a atenção dos alunos para que eles aprendam algo que não lhes cultiva o menor interesse. O professor, neste caso, é um acompanhante de seus alunos, dando-lhes o conhecimento que estes desejam. 

O ideário da escola democrática enfrenta vários problemas sociais e políticos que impedem o seu afloramento, devido ao preconceito que se tem contra esta prática. O equívoco mais comum é que, o aluno, possuindo total liberdade para fazer o que quiser, se transforma numa pessoa problemática, sem limites. Isto não é verdade. A escola democrática possui leis. A diferença é que estas leis não nascem do autoritarismo e arrogância do universo adulto, elas surgem, em comum acordo, entre professores e alunos, num momento em que chamamos de Assembleia. Nesta, os votos de professores e alunos possuem o mesmo peso, ou seja, um garoto de 7 anos possui tanta voz quanto um professor de 36. A criança sente-se sujeito ativo de sua escolaridade, pois não está nela, faz parte dela. 

Atualmente, as escolas democráticas mais conhecidas são, Summerhill (Inglaterra) e a Escola da Ponte (Portugal). E embora não seja totalmente uma pedagogia democrática, as escolas inspiradas na Pedagogia Freinet seguem uma filosofia aproximada à da escola democrática.