sexta-feira, dezembro 7

Autonomia na escola?!

Anteontem pela manhã, enquanto acompanhava os meninos e meninas se entreterem no poliesportivo do colégio com brincadeiras, jogos e até mesmo danças, um fato me chamou a atenção: numa das quadras não cobertas, um garoto havia chutado a bola para o alto, fazendo com que a esfera envolta em couro se encontrasse com a tela de proteção acima. Antes mesmo de ser emitido o som da queda da bola, um outro garoto disse: "Saiu!" e bateram o lateral, como se fosse ali a saída destinada à bola, provocada pelo chute enérgico. 

E aí este simples e corriqueiro momento me fez refletir: a tentativa de liberdade na escola é tida como "saída de jogo". A escola (falo aqui da tradicional, dominante em nosso território e, talvez, até mesmo no mundial) não sabe - ou não quer aprender - a lidar com a liberdade. Fala-se que a escola está aí para preparar para a vida, dando ao sujeito autonomia e capacidade de reflexão. Mas será que é isso mesmo? O que acontece se um menino resolve usar boné, ou falar gírias em sala de aula? Aliás, o que o boné ou a gíria atrapalhariam na construção da autonomia e capacidade de reflexão do indivíduo? 

O uso do boné é uma preferência; a gíria, um meio não só de se expressar, mas uma das cargas socioculturais do sujeito. Então por que opor-se a isso? O discurso é sempre o mesmo: "Não faz parte do uniforme", ou "Esse uso de linguagem não é apropriado na escola". Ou seja, a escola na verdade cria o seu modelo de autonomia e pretende que todos o sigam.

sexta-feira, outubro 26

Quando escola e empresa são sinônimos

Atualmente, trabalho numa escola particular que adota, como base, o modelo tradicional. Alunos e pais são clientes e a comunidade é uma vitrine, ao invés de serem seres sociais e históricos ativos, imersos no processo de ensino e aprendizagem. Para muitos profissionais, esse tipo de escola é um Paraíso. Para mim, nem tanto...

Há poucas escolas na cidade de BH que ousam seguir pedagogias alternativas, como a Pedagogia Freinet, Pedagogia Waldorf, a linha escolanovista, etc. E as que tem, como pude perceber, não possuem vaga pois trata-se de escolas que criam mecanismos internos com a finalidade de aperfeiçoar a prática e estimular a reflexão docentes. Estas são o meu Paraíso, mas muito distantes de mim. Também ficariam satisfeito numa escola pública, pois teria pelo menos a certeza de que eu teria mais liberdade em adotar a prática a qual considero mais adequada para estimular, no aluno, sua autonomia, criatividade, responsabilidade, sensibilidade e liberdade. 

Mas em escolas particulares modelo tradicional, além de não ser possível, impera a imagem de empresa. Digo empresa no sentido da lógica capitalista e não como entidade formal. Isto gera em mim um grande choque, já que sou adepto de uma miscelânia de pedagogias, dentre elas a pedagogia da autonomia (se me permitem a nomenclatura), desenvolvida por Paulo Freire. Freire faz críticas contundentes à educação bancária, de lógica mercadológica, em que o conhecimento seria não somente unívoco, mas também um elemento de discriminação social e cultural. 

Nessas instituições, professores e alunos não são estimulados, senão cobrados por apresentarem resultados considerados "de sucesso" pela elite. Tudo em nome da manutenção da ordem do sistema vigente. 

sexta-feira, setembro 7

O início da jornada

Não estou certo de que todos os recém formados passam pelas mesmas dificuldades pelas quais eu passei, mas tenho certeza que se não todos, uma grande parcela vive a agonia de não conseguir emprego na área e ter de se submeter a empregos que nada tem a ver com nosso perfil e nossa personalidade.


Felizmente este drama foi superado depois de ter conseguido um emprego numa escola como assistente pedagógico. A escola segue a linha tradicional mas não é linha dura. Mesmo assim está totalmente fora de cogitação botar todas várias ideias em prática. Porém já significa muito! Como me disse uma vez meu querido tio, "Toda longa jornada começa com o primeiro passo". E é bem isso mesmo: difícil no começo, mas depois que começa a gente não se cansa facilmente. 

segunda-feira, agosto 20

A utopia é um horizonte - devemos caminhar sempre


Algo que considero fundamental na educação, além da aproximação entre teoria e prática e da autorreflexão, é a utopia. Talvez muitos veem a utopia apenas como um atributo peculiar à juventude e que, aos trinta e poucos anos, é ridículo alguém sustentar utopia(s). Infelizmente este tipo de pensamento é frequente também na área da educação - uma área que, devido o seu caráter político e de impacto social, deve ser movida pela capacidade de sonhar em viver numa sociedade mais justa. O sonho não deve ser desprezado, pelo contrário, deve ser cultivado por cada cidadão e não só por educadores. A melhor definição que ouvi foi de Eduardo Galeano, escritor uruguaio: "A utopia é a linha do horizonte: se me aproximo 10 metros dela, ela se afasta a 10 metros de mim. Mas é para isso que serve a utopia, para caminhar". Complementando, nas palavras de Raul Seixas, "sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só; mas sonho que se sonha junto é realidade".  

sexta-feira, julho 13

Muitos de nós são como formigas infectadas

Todos já devem ter visto uma formiga subindo numa lâmina de capim. A formiga sobe até o topo e cai. Ao cair, sobe novamente e cai outra vez e assim vai procedendo. Acontece que a formiga foi infectada por um parasita, o Dicrocoelium dentriticum. De fato, a formiga não ganha absolutamente nada com isso. E quantos de nós, humanos, somos parecidos com uma formiga infectada por este parasita? Quantos de nós, em pelo menos algum momento de nossas vidas, não passamos por situações similares? 

Um exemplo muito parecido com o subir-cair-subir-cair das formigas infectadas é a barra de rolamento de redes sociais, mas principalmente o facebook. Não, eu não tenho nada contra o facebook e nem nada contra quem tem ou que fica online na rede todos os dias por semana. Só quero constatar que ninguém ganha nada ao passar horas do dia desperdiçando tempo compartilhando posts repetidos ou curtindo posts de rostinhos de animais ou bebês exaltando a chegada da sexta-feira. Bem, e o que isso poderia ter a ver com a educação, um dos temas centrais propostos por este blog? O fato de que uma educação voltada para a autonomia reveste o sujeito de senso crítico e autocrítico. O que quero dizer com isso é que todo mundo é livre de escolher como gastar seu tempo livre da maneira que quiser; mas aí que está a palavra-chave da questão: escolha e não indução. Posso passar por papel de conspirador diante do olhar de muitos, mas acredito firmemente que o facebook se utiliza de artimanhas capazes de atingir o subconsciente dos usuários, uns mais, outros menos, mas todos são - de uma maneira ou de outra - "infectados" por estes recursos. 

Seja a utilização da cor azul ou qualquer outra coisa, acho realmente que há alguma coisa além dos impulsos elétricos da tela dos computadores em que o facebook é acessado. Mas estando eu errado ou não, o fato é que a rede social causa dependência, assim como os modernos aparelhos como iphone, ipad, etc. Porém estes aparelhos não são mais utilizados para ler e-books do que para acessar as redes sociais. E por falar em leitura, poucos são os jovens hoje que dedicam seu tempo livre, ou pelo menos parte dele, a um bom livro. Sinceramente eu acho muito preocupante que seja mais relevado atividades de pouco teor intelectual. O problema ainda se agrava, a meu ver, quando a escola (geralmente de caráter tradicional) incorpora a leitura como meio de barganha de pontuação, explicitando ainda mais o caráter bancário que a educação vem assumindo nestes últimos séculos, ao invés de trabalhar a leitura como prática saudável de prazer e entretenimento. O simples ato de folhear um bom livro é, em si, superior ao acionar para cima e para baixo a barra de rolamento de redes sociais.

quarta-feira, julho 11

A crise da educação é a crise da sociedade

Uma das associações interessantes que percebi no período da faculdade de pedagogia com o auxílio de autores, professores e colegas é que não há distinção ou deligamento da crise da sociedade com a crise da educação. E por que não? 

Bem, primeiramente penso que é pela educação que perpassa o cerne da organização social. E consequentemente, é na sociedade que se pode ver o reflexo da educação. Hoje, no Brasil, assim como em todas as partes do Globo, predomina a educação que estimula a competição doentia e que cultua o descartável, o momentâneo e o virtual. Coloca-se em pauta maior o ter ao invés do ser, o "ficar" ao invés de um relacionamento comprometido. 

No âmbito da educação, podemos traduzir isto como a existência dos vestibulares: os planos educacionais das instituições são planejados de acordo com o que é cobrado no vestibular, e não com base no que é essencial para o desenvolvimento da autonomia do sujeito no seu convívio harmonioso com a natureza. 

Os assédios publicitários carregados de machismo e discriminação racial e social (talvez até religiosa) são levados com muita seriedade por boa parte da sociedade, de tal modo que os anúncios de uma propaganda podem ser impregnados na linguagem coloquial do cotidiano. Programas de tv travestidos de humor, mas que, na verdade utilizam o espaço midiático para impor valores não essenciais à felicidade humana, são aclamados por uma imensa plateia que cada vez mais está massificada. Não é raro que haja pessoas que, em contrapartida, sintam-se descaracterizadas pela tendência "igualicionista" imposta pela grande mídia. 

Na escola é muito comum que os alunos sejam tratados como sendo um únicos nas questões mais pluralmente peculiares ao ser humano, como a questão cultural, por exemplo. Os professores também são vistos destas maneiras pelos próprios alunos, pelos pais dos mesmos e, em muitos casos, até mesmo pela direção e coordenação. Espera-se sempre a mesma reação, as mesmas conversas e os mesmos métodos. A sociedade atual em que vivemos é tida como plural, mas contraditoriamente, a pluralidade das pessoas encontra barreiras para se manifestar.  

quinta-feira, junho 21

Sociedade contemporânea, capitalista, pós-moderna



'Inda vivemos o espectro dos sonhos do progresso que trará a nós o fim de nossas frustações, doenças e dores. Na verdade, quanto mais parecemos avançar, mais estamos condenados à escravidão. 

segunda-feira, abril 30

Rousseau e a edcuação

O vídeo abaixo é uma bela mistura de boa animação com bom conteúdo. Um dos maiores iluministas tem sua vida e obra contadas de maneira resumida, mas está longe de ser um vídeo superficial. A obra que é destacada é "Emílio ou Da Educação", na qual Rousseau expõe suas ideias pedagógicas. Ideias estas bem avançadas para homens de sua época. Após assistir a este vídeo, tive uma melhor compreensão da dimensão da pedagogia rousseauriana (se vocês me permitem assim dizê-lo), além de poder constatar que Niell se embriagou na sabedoria deste francês do século XVIII. 


sexta-feira, abril 27

Na cotra mão da opinião pública

Se Friedrich Nietzsche (1844-1900), que tanto criticava a "inteligência de rebanho", morresse a tempo de ver a Escola Summerhill, de certo que ficaria feliz por ali não haver espaço para o sustento destas inteligências das massas. 

A.S. Niell gostava de deixar bem claro que era totalmente contra ao fato de um adulto comentar sobre política ao lado de uma criança, pois certamente que a criança não criaria um pensamento pra si, mas adotaria para si um pensamento já adotado por seus pais, que teriam adotado este pensamento de outras pessoas, naturalmente, ou de um grupo de pessoas, o que parece ser mais provável. Se por um lado Niell critica o comunismo por este sistema não reconhecer o humano como indivíduo, mas como parte integrante de um conjunto de homens, também é contra o consumismo mecânico, exacerbado. Pois da mesma maneira o humano não é reconhecido como indivíduo, mas como uma peça de engrenagem da economia. 

A crítica de Niell às inteligências de rebanho (apesar dele não usar este nome) é um ataque às ideologias que permeiam os meios sociais tão naturalmente, que camuflam tranquilamente seus preconceitos e venenos contra a individualidade. Apesar do discurso atual da sociedade contemporânea ser quase ufanista em defesa da individualidade, vemos no dia-a-dia através dos meios de comunicação, sobretudo das redes sociais, que esta individualidade está presente apenas no discurso, porque o legal é ser igual a todo mundo que segue as modinhas de humor (muito sem graça, por sinal), estética e arte (que na verdade é um assassinato à arte). 

Por isso Niell não deixa de lado a religião e o futebol. O futebol,  paixão nacional brasileira, assim como inglesa, é mais do que cultura - é uma ferramente política e econômica. Política por que consegue facilmente alienar a grande maioria das pessoas e econômica por causa da exorbitante montanha de dólares que são amontoados, por exemplo, no evento da Copa do Mundo. Dólares que não são revestidos em serviços sociais em prol das comunidades carentes dos países em que a Copa é realizada. Um exemplo recente é a África do Sul, com problemas acentuados de pobreza. O capital inicial investido para a preparação do evento seria capaz de resolver o problema de moradia sulafricano. Imagine então o que o dinheiro faturado não poderia fazer. 

A crítica de Neill à religião é muito mais contundente e inteligente que as várias críticas que estamos presenciando do novo ateísmo. Enquanto Neill ataca dogmas arcaicos, o novo ateísmo chama religiosos de imbecis; e não duvido que muitos destes "novos ateus" estariam dispostos a demolir igrejas. Bem, eu também sou ateu e contra a religião que prega a negação da vida, mas estou longe de querer proibir as pessoas de seguirem a fé que desejam. Faço de Niell as minhas palavras: "Pessoalmente, nada tenho contra o homem que acredita em Deus - em qualquer Deus. Minha objeção é contra o homem que acredita ser o seu Deus a autoridade máxima para decidir os cursos e felicidades humanos". 

E quem já leu "Liberdade Sem Medo" sabe que os alunos de Summerhill não tem interesse por religião alguma e tampouco pelo futebol, por ser popular de mais. E elas preferem estudar aquilo que as interessa realmente e, segundo Niell, é impossível que uma criança sinta interesse por estudar uma religião que alega que ela nasceu pecadora e precisa da redenção. Recentemente tentei encontrar alunos ou ex alunos de Summerhill no facebook. Não encontrei nenhum deles. Procurei por algumas semanas e nada. O que encontrei foram duas páginas sobre Neill e Summerhill, as duas com poucas "curtidas". E a página de Summerhill sequer tinha uma imagem. Não estou criticando um possível descaso de quem criou a página de Summerhill, eu achei fantástico! Pois se a alguém despertasse o interesse de saber o que vem a ser Summerhill, este alguém certamente iria pesquisar no Google e maravilhar-se com a descoberta. 

Mas voltando aos alunos e ex-alunos. Não é de se surpreender que nenhum deles (ou pelo menos uma grande parte deles) não estejam imersos nas redes sociais. Certamente por que a educação para a liberdade, para a autonomia, ensine o indivíduo a questionar-se: "Qual a utilidade disso?"; "O que eu ganho com isso?". Nós, que viemos de escolas tradicionais, não fomos ensinados e muito menos incentivados a questionarmos assim. Tudo nos era imposto - de maneira surpreendente ainda nos é imposto - por nossos professores, desde regras escolares sem sentido como a obrigação de aprender um conteúdo que hoje nem nos lembramos mais. Mas isso não há em Summerhill.

sábado, março 3

O pensar por si próprio

Quem pensa por si mesmo não segue moda, ou pelo menos, não se preocupa com a moda. Se hoje a tendência é usar o que há um ano atrás seria taxado de ridículo, muitas pessoas curvam-se ao gosto de que elas mesmas zombariam se não estivesse sendo sustentado por uma celebridade, por exemplo. Quem pensa por si próprio, também não se importa com a opinião pública, não por se julgar superior aos demais, mas por reconhecer os preconceitos e interesses de grupos sociais por trás destas opiniões. Pensar por si próprio é mais que apenas demonstração de maturidade intelectual, é o pleno exercício da autonomia e da razão.  

Nas escolas tradicionais, os alunos aprendem a pensarem conforme o livro ou conforme o professor deseja ver escrito numa prova. As crianças são induzidas, nestas escolas, a adotarem o ideário do jogo capitalista, pautado na competição desenfreada. Em sua defesa, estas escolas alegam, "Estamos preparando-os para a vida". Mas que vida? A vida que eles querem ter ou a vida que nós somos forçados a acreditar que deve ser assim e não de outra maneira? Vale a pena questionar. Os resultados podem ser surpreendentes.

segunda-feira, fevereiro 20

Uma educação para a liberdade dos corpos

Numa sociedade, como a nossa, de tradição cristã, o corpo é deveras desprezado, tido como sujo. Atender aos desejos do corpo é impuro. Maior pecado ainda se sentir prazer. É certo que crianças vítimas desta visão obsoleta tornem-se adultos ansiosamente censuradores e inseguros. Eles contaminarão seus filhos quando forem pais e o processo tende a tomar continuidade com os netos. 


Não há que se ter censura se queremos educar uma criança de maneira saudável. Uma criança, naturalmente, possui curiosidades sobre o sexo e há que se esclarecer estas dúvidas, sem muitas delongas e com objetividade. Demonstrar à criança que o corpo é belo e não sujo. Não significa, porém, que uma criança de 10 anos deva ser expert em posições sexuais, também não é por esse lado. Mas tratar do corpo da maneira sensata: com naturalidade. Meninos e meninas não devem crescer com a ideia de que é errado que cada um forneça prazer a si mesmo. Isso é algo absurdo! Se temos mãos e órgãos genitais, por que não tocá-los, por que não explorá-los e conhecê-los? Se é pecado, por que diabos nascemos com eles? A religião, sobretudo a religião cristã, tende a menosprezar o que é natural e isto é prejudicial a qualquer pessoa. 

Recentemente há um movimento cristão, comum a evangélicos e católicos, denominado Eu resolvi esperar, sobre abstinência sexual até depois do casamento. Jovens que relatam, muitas vezes orgulhosos, de que conseguiram vencer a tentação e se guardaram para o grande momento. Agora, para quê, isso? Que finalidade pode ter uma coisa absurda dessas? Se a pessoa possui uma idade em que ela se considera psicologicamente capaz de fazer sexo e tem vontade, por que não fazer? Cada momento de intimidade é importante para que nos conheçamos melhor. E imaginem tal situação: a mulher se "guarda" para o grande momento e se depara com a contradição entre a realidade e a expectativa, pois todas as mulheres sentem mais incômodo que prazer na primeira vez - talvez a maioria sinta apenas incômodo. E aí, como será depois? Aquele momento em que a mulher esperava por ser mágico, foi na verdade da maneira que tinha que ser, da maneira que a natureza do corpo dita e não da maneira que a mente imagina. 


Para o homem é bem menos uma desilusão que para as mulheres. Mas ficar meses sem se masturbar e achar que cometeu uma impureza ao não resistir a tentação é uma loucura! O corpo não deve ser desprezado, ele deve ser conhecido intimamente pelo seu dono, ou sua dona. 

domingo, fevereiro 19

Um pouco de minha rasa experiência...

A experiência até hoje  mais consolidada que tenho com na área da educação é a escola integrada. O período de estágio durou de junho de 2010 a dezembro de 2011, devido ao meu desligamento da universidade. A escola localiza-se na Zona Norte de Belo Horizonte, num bairro de pessoas humildes. Para quem não sabe, a escola integrada é um projeto paralela instituído pela Prefeitura na gestão de Fernando Pimentel (2003-2007) e conta com pessoas de variadas áreas e habilidades. O problema, porém, e aí começo a tecer minha principal crítica à política pública, é que uma habilidade é o suficiente para que a pessoa trabalhe na escola; se ela for moradora do bairro, então, melhor ainda! Nos dias de reunião parecia mais um encontro entre vizinhos fofoqueiros do que profissionais da educação engajados. Exatamente, não há entrevistas, não há nenhum tipo de teste de atuação. Não digo, porém, que seja assim em todas as escolas integradas, mas com certeza em muitas ainda existe esta displicência. 

A falta de empenho na eleição dos monitores - ou seja, os agentes educativos - consequentemente causava muita insatisfação nas crianças, que rotineiramente se deparavam com situações desagradáveis de pessoas autoritárias e despreparadas em lidar com crianças. É bom deixar claro que o fato de uma mulher ser mãe, por exemplo, não a torna apta a lidar com crianças. A maternidade, em si, não demonstra competência e sensibilidade suficientes para a prática pedagógica. Demasiadamente as crianças reclamavam da falta de respeito que alguns monitores as tratavam. Algumas vezes eu mesmo cheguei a tratar uma criança com desrespeito, principalmente por estar de cabeça com quente em relação aos problemas da integrada que não eram resolvidos por falta de empenho e interesse da maior parte da equipe de trabalho. Contudo, uma criança jamais deve pagar pelos problemas dos adultos, e tenho alegria em dizer que tive a humildade em me desculpar com estas crianças. Na maioria das vezes, eu me desculpava algumas horas depois; uma vez apenas, eu me desculpei no dia seguinte e, também uma vez, deixei de me desculpar. Ainda hoje eu sinto por não ter me desculpado com aquele garoto pela minha mal criação. 

De fato eu tentei ao máximo aperfeiçoar minha prática docente e torná-la cada vez mais coerente com o meu discurso progressista. Porém, ao tratar de escola integrada, deve-se levar em consideração a falta de estrutura física (as oficinas, ou seja, as atividades realizadas pelos monitores, eram desenvolvidas em outros locais que não a escola, pela insuficiência do espaço. Usávamos uma casa apertada e uma igreja evangélica monótona), de pessoas preparadas (de um corpo de 10 monitores, apenas 3 eram estudantes universitários ligados à educação; os demais 7 possuíam experiências com a maternidade ou paternidade, ou sabiam pintar sobre tecidos, jogar capoeira, etc.) e das constantes faltas de alguns monitores, as turmas pareciam verdadeiros batalhões, com toda a sua energia jovial inesgotável diante de estagiários estressados com as falcatruas do sistema público de ensino e os apertos da faculdade. É triste dizer, mas a escola integrada é uma prova de fogo na rede municipal de BH, quando deveria ser a experiência de ouro de futuros professores e pedagogos.

sexta-feira, fevereiro 17

Como nasceu este blog


Sou pedagogo recém formado e possuo, desde há algum tempo antes de adentrar-me no curso, interesse na área da educação, tanto teórico quanto prático. No decorrer do curso, nas conversas informais com os companheiros e companheiras de faculdade, fui conhecendo um pouco mais sobre autores e pensadores que eram esquecidos no espaço da sala de aula da faculdade. Teóricos que, aos olhos de vários professores, praticamente não existiam. É justo, porém, que eu ressalte que as ideias de PauloFreire foram bem difundidas. 

Mas como na universidade a formação pode ocorrer em todos os espaços e todos os sentidos, as conversas com meus colegas foram de fundamental importância para que eu conhecesse estes teóricos deixados no fundo do baú. E um deles foi A.S. Neill, fundador da escola Summerhill. Porém, o aprofundamento maior nas ideias deste educador foi graças à minha esposa, atualmente futura pedagoga, que comprou o livro "Liberdade Sem Medo (Summerhill)", num sebo à Rua Guajajaras, próximo à faculdade. 


Posso dizer que fiz uma leitura deliciosa, não só pelo apetite à leitura que o livro provoca pela sua simplicidade, mas também pela beleza pedagógica que o autor nos apresenta. Uma destas belezas é afirmar que: "(...) prefiro que Summerhill forme um varredor de ruas feliz a um Primeiro Ministro neurótico". Para Neill, o alcance do sucesso na vida é ser capaz de lidar com a própria vida; sem medo de encará-la em todos os sentidos. É sentir-se seguro frente a uma eventualidade inesperada. É erguer-se rapidamente após um tombo. Ensinar com liberdade - a verdadeira liberdade, e não os mimos excessivos - é mostrar à criança que ela é capaz de fazer suas próprias escolhas. 

Nunca li nada na área da educação que se compare a Liberdade Sem Medo. E talvez nunca lerei nada que chegará aos pés desta grande obra. No decorrer daqui pra frente, detalharei um pouco mais sobre os assuntos apresentados no livro.

quinta-feira, fevereiro 16

Inicialmente, o que é uma escola democrática


Uma escola democrática é uma instituição de ensino que está fora do padrão das instituições educacionais  mais comuns, tais como as que adotam exames admissionais, provas bimestrais, gráficos comparativos no boletim, hierarquia escolar, etc. Estando fora do padrão, uma escola democrática apresenta uma proposta em que o aluno é livre para tomar sua própria iniciativa - e é incentivado para isto! Os professores é que tem que se adaptar aos alunos, não o contrário. Aliás, o papel dos professores numa escola democrática está muito além de passar lições guiadas por livros didáticos e chamar a atenção dos alunos para que eles aprendam algo que não lhes cultiva o menor interesse. O professor, neste caso, é um acompanhante de seus alunos, dando-lhes o conhecimento que estes desejam. 

O ideário da escola democrática enfrenta vários problemas sociais e políticos que impedem o seu afloramento, devido ao preconceito que se tem contra esta prática. O equívoco mais comum é que, o aluno, possuindo total liberdade para fazer o que quiser, se transforma numa pessoa problemática, sem limites. Isto não é verdade. A escola democrática possui leis. A diferença é que estas leis não nascem do autoritarismo e arrogância do universo adulto, elas surgem, em comum acordo, entre professores e alunos, num momento em que chamamos de Assembleia. Nesta, os votos de professores e alunos possuem o mesmo peso, ou seja, um garoto de 7 anos possui tanta voz quanto um professor de 36. A criança sente-se sujeito ativo de sua escolaridade, pois não está nela, faz parte dela. 

Atualmente, as escolas democráticas mais conhecidas são, Summerhill (Inglaterra) e a Escola da Ponte (Portugal). E embora não seja totalmente uma pedagogia democrática, as escolas inspiradas na Pedagogia Freinet seguem uma filosofia aproximada à da escola democrática.