Se Friedrich Nietzsche (1844-1900), que tanto criticava a "inteligência de rebanho", morresse a tempo de ver a Escola Summerhill, de certo que ficaria feliz por ali não haver espaço para o sustento destas inteligências das massas.
A.S. Niell gostava de deixar bem claro que era totalmente contra ao fato de um adulto comentar sobre política ao lado de uma criança, pois certamente que a criança não criaria um pensamento pra si, mas adotaria para si um pensamento já adotado por seus pais, que teriam adotado este pensamento de outras pessoas, naturalmente, ou de um grupo de pessoas, o que parece ser mais provável. Se por um lado Niell critica o comunismo por este sistema não reconhecer o humano como indivíduo, mas como parte integrante de um conjunto de homens, também é contra o consumismo mecânico, exacerbado. Pois da mesma maneira o humano não é reconhecido como indivíduo, mas como uma peça de engrenagem da economia.
A crítica de Niell às inteligências de rebanho (apesar dele não usar este nome) é um ataque às ideologias que permeiam os meios sociais tão naturalmente, que camuflam tranquilamente seus preconceitos e venenos contra a individualidade. Apesar do discurso atual da sociedade contemporânea ser quase ufanista em defesa da individualidade, vemos no dia-a-dia através dos meios de comunicação, sobretudo das redes sociais, que esta individualidade está presente apenas no discurso, porque o legal é ser igual a todo mundo que segue as modinhas de humor (muito sem graça, por sinal), estética e arte (que na verdade é um assassinato à arte).
Por isso Niell não deixa de lado a religião e o futebol. O futebol, paixão nacional brasileira, assim como inglesa, é mais do que cultura - é uma ferramente política e econômica. Política por que consegue facilmente alienar a grande maioria das pessoas e econômica por causa da exorbitante montanha de dólares que são amontoados, por exemplo, no evento da Copa do Mundo. Dólares que não são revestidos em serviços sociais em prol das comunidades carentes dos países em que a Copa é realizada. Um exemplo recente é a África do Sul, com problemas acentuados de pobreza. O capital inicial investido para a preparação do evento seria capaz de resolver o problema de moradia sulafricano. Imagine então o que o dinheiro faturado não poderia fazer.
A crítica de Neill à religião é muito mais contundente e inteligente que as várias críticas que estamos presenciando do novo ateísmo. Enquanto Neill ataca dogmas arcaicos, o novo ateísmo chama religiosos de imbecis; e não duvido que muitos destes "novos ateus" estariam dispostos a demolir igrejas. Bem, eu também sou ateu e contra a religião que prega a negação da vida, mas estou longe de querer proibir as pessoas de seguirem a fé que desejam. Faço de Niell as minhas palavras: "Pessoalmente, nada tenho contra o homem que acredita em Deus - em qualquer Deus. Minha objeção é contra o homem que acredita ser o seu Deus a autoridade máxima para decidir os cursos e felicidades humanos".
E quem já leu "Liberdade Sem Medo" sabe que os alunos de Summerhill não tem interesse por religião alguma e tampouco pelo futebol, por ser popular de mais. E elas preferem estudar aquilo que as interessa realmente e, segundo Niell, é impossível que uma criança sinta interesse por estudar uma religião que alega que ela nasceu pecadora e precisa da redenção. Recentemente tentei encontrar alunos ou ex alunos de Summerhill no facebook. Não encontrei nenhum deles. Procurei por algumas semanas e nada. O que encontrei foram duas páginas sobre Neill e Summerhill, as duas com poucas "curtidas". E a página de Summerhill sequer tinha uma imagem. Não estou criticando um possível descaso de quem criou a página de Summerhill, eu achei fantástico! Pois se a alguém despertasse o interesse de saber o que vem a ser Summerhill, este alguém certamente iria pesquisar no Google e maravilhar-se com a descoberta.
Mas voltando aos alunos e ex-alunos. Não é de se surpreender que nenhum deles (ou pelo menos uma grande parte deles) não estejam imersos nas redes sociais. Certamente por que a educação para a liberdade, para a autonomia, ensine o indivíduo a questionar-se: "Qual a utilidade disso?"; "O que eu ganho com isso?". Nós, que viemos de escolas tradicionais, não fomos ensinados e muito menos incentivados a questionarmos assim. Tudo nos era imposto - de maneira surpreendente ainda nos é imposto - por nossos professores, desde regras escolares sem sentido como a obrigação de aprender um conteúdo que hoje nem nos lembramos mais. Mas isso não há em Summerhill.